Dezembro 2010 / Janeiro 2011

Pintura. Se num suporte for pintada uma árvore ou um braço, a pintura tem representada uma árvore, um braço; mas não é uma arvore ou um braço. É apenas uma pintura, que para além do que lhe está inscrito, se representa a si mesma, às suas possibilidades como meio de representação que é.

E se a pintura representa uma árvore ou um braço, quem a olha não vê uma floresta ou um corpo, porque a pintura só representa o que nela contém e não o que está fora dela, “fora de campo”.

Como processo de representação, por vezes sente-se insuficiente e ambiciona remeter para o que não representa directamente, para o que a pintura não contém. Nessa situação a pintura funciona como um dispositivo conceptual, que usando o processo da pintura remete, contudo, para fora de si . E ela tem essa possibilidade, se mais não for, porque a pintura e a arte não são uma representação da realidade, mais uma sua ampliação.

Esse não ser realidade, é uma das portas que abre a obra de arte ao espectador, que permite que este não esteja preocupado em restaurar o que o artista quis dizer, mas antes com o significado que ele próprio lhe pode acumular, acrescentando-lhe a sua própria interpretação.

Uma das ferramentas conceptuais que o artista pode incluir na pintura é a linguagem escrita, que nos remete de imediato para um campo de organização do pensamento que estamos mais treinados a usar para alcançar a comunicação e a compreensão.

Assim, perante a impossibilidade da pintura de remeter directamente para fora de si, o uso de palavras (ou mesmo de um elemento mais reconhecível no âmbito de uma representação mais abstracta) na pintura, activa mecanismos de compreensão fora da imagem que é oferecida, fora do que é directamente representado.

E nós (espectadores) depois passamos a procurar os nós (as ligações) que possam existir entre o que está dentro (o representado) e o que está fora (o total compreendido, ou a ampliação do representado a  partir do que foi dado à representação), ou seja, passamos a estar lançados na nossa interpretação da imagem, tornando-a com isso,  contemporânea do nosso presente.

 

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