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Repetir para Variar, Desmontar para Construir – Felipe Barbosa

  A Galeria Sete tem o prazer de anunciar a primeira exposição individual do artista Felipe Barbosa em Coimbra. Repetir para Variar, Desmontar para Construir Felipe […]
convite ases&trunfos 2022

Ases e Trunfos > 2022

  Ases e Trunfos > 2022 Acervo aberto A partir de terça feira, 19 de junho de 2022 

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Quase Lugar

Gil Maia

19 de fevereiro a 16 de abril de 2022

 

“A infância não é uma coisa que deixamos. A infância é um projecto. A infância não é uma coisa do passado, mas é uma espécie de saudade e de esperança, é um compromisso com o futuro, é esse viver de coração desarmado. E um dos traços dessa infância futura é a capacidade de fazer persistir o espanto, a curiosidade, a admiração, a surpresa”.

José Tolentino Mendonça

 

Quando falamos de lugar não falamos apenas de um espaço físico, mas também e sobretudo de um espaço relacional. São as relações, as emoções e as vivências que nos permitem atribuir o estatuto de lugar a um espaço físico, pois são estas que lhe acrescentam um significado. Criam-se laços, hábitos e afectividades. Criam-se memórias.

Quase lugar é uma viagem à infância, ao lugar da infância. Se por um lado, a memória me dá a possibilidade de mergulhar nessa vivência, trazendo consigo emoções e imagens, por outro,  o espaço físico ainda existente permite-me tocar, hoje, de forma tangível parte dessa infância. Contudo esse espaço actual não me permite experienciar as mesmas relações e emoções  intrínsecas àquela vivência. Essas, só as consigo aceder através de espelhos baços recorrendo à memória,  desaguando inevitavelmente no imaginário. Viajar ao lugar da infância é não ir ao lugar na sua plenitude, é apenas chegar perto, é chegar quase. Ir ali é criar outra memória, uma sub-memória, para poder sentir mais de perto o que já não está, quem já não está, os afectos que porventura se perderam. Para além deste facto, que por si só justifica o quase lugar, há o facto de o espaço físico não ser, hoje, exactamente o mesmo. O cenário também mudou, sendo cúmplice no esvaimento da essência daquele lugar, que deixou de ser para ser quase.

A Pintura permite-me auscultar um pouco mais fundo a constatação da perda. Da perda de uma infância que, desconhecendo um futuro totalmente distinto, acordava sempre para o espanto, para a liberdade e para a imaginação. Permite-me tocar, saindo à rua, no coração do mais importante e estruturante do meu ser, naquilo que fui, que sou e que serei.

Em nota de conclusão, a infância de hoje mereceria uma reflexão muito profunda, pois, no meu entender, é parca em vazio, em silêncio, em espaço e consequentemente em liberdade e espaço para a imaginação, sendo estas características primordiais no desenvolvimento de seres humanos menos ocupados com trivialidades e mais com essencialidades.

Gil Maia