António Melo não acredita em palavras para explicar pintura. Quando muito, acreditará nas palavras para se ajudar a descobrir
a si mesmo e, por isso, desenvolve também o seu universo muito particular em abordagens escritas, por vezes organizadas de forma
literária (como por ex. o seu romance “o coleccionador de ninhos”) ou em processo de pensamentos escritos que o revelam como
estando alheio a modas e tendências, apenas comprometido consigo próprio, como bem ilustra o seguinte excerto de sua autoria:
“Muito tempo após ter sido declarada a morte da pintura de cavalete, um homem de ilusões muito castas, que se preparou
convictamente para vir a ser artista plástico, desfere as primeiras pinceladas sobre a tela que tem diante de si, sem se preocupar
com o facto de os seus gestos terem dado início a um acontecimento controverso.
São movimentos voluntários à procura de uma resolução, e a tela, que virá a tornar-se quadro, está assente num cavalete,
tripé bem firmado no terreno.
E que lugar geográfico ao ar livre ocupa o artista, neste momento? Profundamente absorto, está instalado num ponto qualquer,
vulgaríssimo, que não se trata sequer de um geossítio, propriamente dito. Mas a posição que ocupa permite-lhe espreitar uma
paisagem, de tempos a tempos, onde colhe inspiração, enquanto se expõe ao perigo de ser reputado de artista obsoleto.
- Vê se pintas umas paisagens bonitinhas, e olha que isso não fará de ti um artista pré moderno, até porque a modernidade
também é efémera - sugeriu-lhe a esposa, há dias.
Será que a mulher com quem vivo acaba de pôr a nu o conceito de modernidade artística? Interrogou-se o artista, na ocasião.
António de Melo”
Assim, talvez o Atlas, o que carrega o Mundo, mais não seja que o próprio pintor nas suas pinturas a carregar o seu inusitado
mundo, para lá da sua personagem de saltos altos e guarda-chuva que nos habituou há muito a ver nas suas performances.