Abril / Maio 2016

 

“Tudo o que nos rodeia tem uma história, um significado, uma definição. Nem tudo o que vemos tem a mesma percepção visual e sentimental entre sujeitos. Por exemplo, a novidade visual de um Drone num concerto ou numa festa tem para muitos um significado “olá estou aqui...” mas para muitos outros é uma leitura para um comando mais obsessivo de controlo ou de “Big brother”, numa previsão futurista do destino da Humanidade. Encontramos esta reflexão nas obras de Gabriel Garcia [...].

Hoje somos “bombardeados” por imagens que entram através das redes sociais de uma forma banal que nos fazem viver numa grelha visual sem filtros. Deixámos de saber o que é verdade ou falso, genuíno ou ridículo e passámos a fazer parte de alguma coisa que não é nossa, de um espaço que não reconhecemos. [...] Passámos a ser seguidores de alguém a centenas ou milhares dequilómetros de distância através de imagens, um olho gordo sobre tudo. Agora somos observadores de vidas alheias. Fazem-se histórias a partir de um instante de um “pixel”. Não controlamos o que pretendemos das imagens, dos objectos ou dos acontecimentos.

Será que pintura ainda faz sentido? Numa sociedade em que a imagem é trivial e pode ser recolhida por cada um de nós? [...] Os conceitos da pintura mudaram ao longo dos séculos com o decorrer das alterações sociais e económicas e do pensamento filosófico. Por um lado reconhecemos na pintura clássica a utilização do modelo, da natureza morta, do cavaleiro, da águia-real e outras cenas intemporais. Na pintura de Gabriel Garcia transformaram-se em outras asas de voo, em outras naturezas mortas, em outros cavaleiros. A representação é a da criatura individual da era digital. A expressão é a da solidão, do vazio, da desolação e da estagnação da vida humana, exposto nas figuras anónimas que jamais se comunicam. Pintura que evoca o silêncio, a restrição, e que exerce frequentemente um forte impacto psicológico.

Despoletar o sentir universal do Homem, as circunstâncias das suas vivências e das suas memórias reais ou construídas, é o trabalho intelectual para que Gabriel Garcia nos convoca, num processo onde a ironia, o desejo, o inesperado e o maravilhoso se mantêm, e que está bem visível nesta exposição.

Nascido na ilha do Pico, Açores, circunstância que lhe moldou a forma de sentir e ver o Mundo, nunca, até esta série de trabalhos, GabrielGarcia tinha mostrado tão claramente no seu trabalho o isolamento, a noção de estarmos acompanhados mas sós, e a necessidade de nos agregarmos.”

Gabriel Garcia

Isabel Vaz Lopes

 

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